“Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o Senhor; e porei a salvo a quem por isso suspira.”
— Salmos 12,5
“Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.”
— Lucas 6,20-21
Opção preferencial pelos pobres
Esta “opção” se apresenta na reflexão teológica da Igreja Católica desde a década de 1960, passando a ganhar, ao decorrer dos anos, maior ênfase. Inicialmente foi a Igreja na América Latina que mostrou a importância de se olhar primeiramente para os que se encontram em maior vulnerabilidade. Posteriormente, o próprio Magistério eclesial adotou este tema e o incluiu em seus documentos oficiais.
Com a II Conferência do Episcopado Latino-Americano (Medellín – 1968), sendo enfatizado na terceira (Puebla – 1979), assumia-se a opção preferencial e solidária pelos pobres.
De modo mais recente, o Papa Francisco, latino-americano, na sua carta encíclica que veio a se tornar um marco para a reflexão sobre teologia e ecologia, Laudato Si’, reafirmou contundentemente este compromisso.
Seu sucessor, o Papa Leão XIV, na exortação apostólica Dilexi te, renovou a importância de se olhar para o pobre e suas lutas:
“Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade.”
— Papa Leão XIV, Dilexi te, 7
Missão integral
No protestantismo, em diálogo e contemporaneidade com os anseios da Teologia da Libertação (TdL), desenvolveu-se uma importante reflexão teológica em prol da atenta observação à situação dos pobres.
René Padilla, uma das figuras centrais no desenvolvimento e na articulação da Teologia da Missão Integral na América Latina, sobre Jesus de Nazaré, o Cristo, e seu ministério, afirmou:
“Ele é o arauto de uma nova era que se faz presente mediante sua própria ação em favor dos pobres, cativos, cegos e oprimidos. Seu evangelho é boa notícia de algo que está acontecendo pelo poder do Espírito que atua por meio dele.”
— PADILLA, C. René. Missão integral, p. 77-78.
O que é salientado, através dessa hermenêutica, é a questão do pobre como um importante alvo da missão de Cristo, o que fica evidente diante dos relatos evangélicos. Dessa forma, tanto a Missão Integral como a TdL, como também atualmente a Igreja Católica pelo seu magistério, todos compreendem que o objetivo da Igreja em sua ação social, sendo corpo de Cristo, é seguir os seus passos e inspirar-se em suas ações para basilar sua missão.
Fé, política e aporofobia: “Mas ai daqueles que se levantam a favor dos pobres!”
As teologias apresentadas até aqui enfrentaram e ainda enfrentam forte resistência, em parte pela dimensão política que assumem em suas práxis. Contudo, cabe questionar: o que, afinal, não é político?
Há de se dizer e é necessário garantir que o casamento entre Religião e Política não dá bons frutos. As análises apontam que desde o imperador Constantino isso é tido como algo a ser evitado, pois a união desses polos produziu pela história múltiplas violências. Mas talvez precisemos reformular essa questão substituindo “política” por “partidarismo”.
Dentro desse tema, vale lembrar, de igual forma, aquilo que Adela Cortina discorreu em sua obra “Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia”.
Segundo a autora, essa “aporofobia” seria:
“[…] aversão ou rejeição ao pobre, porque parece que a pobreza é desagradável, que o pobre apresenta problemas e que de algum modo contamina. Não me refiro apenas à pobreza econômica, mas à de quem se encontra desvalido e sem apoio em uma má situação, à de quem é objeto de críticas, ameaças, desprezo ou provocação porque carece de poder, seja na política, na empresa, na universidade, na escola, na fábrica ou em qualquer lugar […]. Em cada caso, o pobre é o sem poder nesse tempo e nesse lugar. É contra ele que se dirigem os discursos de aversão e rejeição, inclusive de ódio, que permitem manter os que estão bem situados onde estão, sempre seguidos por seus lacaios.”
— CORTINA, Adela. Aporofobia, a aversão ao pobre, p. 68 do arquivo.
Diante disso, percebe-se uma inquietante verdade que a todos aflige: A pobreza incomoda! Não só ao pobre, mas a quem o observa e tem que ver nele o que não quer para si. O problema de olhar para o pobre é que ele não colabora com “a minha felicidade”, pois ele a questiona. Em seu silêncio e em sua escassez ele grita para o observador: se você tem tanto comparado a mim, por que não poderíamos nós dois ter ao menos metade de “tudo” isso aí?
Por isso, não causa surpresa que as sociedades sempre busquem levar o pobre para longe, para a margem, mantendo-o escondido em lugares onde os olhos não possam ver e o constrangimento do observador não seja possível.
“Assistencialismo não vai resolver, tem que ensiná-lo a pescar”
Este é um modelo de frase usado para argumentar contra as políticas assistencialistas. Mas esse “ensinar a pescar” não é tão fácil como parece. Pois, aproveitando a analogia, poder-se-ia debater dizendo:
Mas em que rio, se nós os matamos?
Pois, além de toda a desigualdade social, há também toda uma degradação do planeta que tem sido acusada nos últimos anos e que até então não encontrou amplo apoio para a superação dessa crise. E, mais uma vez, destaca-se o pobre, maior afetado pela poluição, degradação do ambiente, morte dos rios, falta de saneamento básico.
Por fim, volta-se ao princípio, àquilo que os olhos de Deus estão atentos. Em Jesus isso ficou evidente: ele estava literalmente ao lado dos pobres. Isso não quer dizer que ele favorecia a perpetuação dessa condição, mas que, pelo contrário, com sua misericórdia e graça ele levava “riqueza” aos que necessitavam.
Em um dos relatos mais impactantes do Evangelho segundo Lucas, quando Jesus estava em uma sinagoga na Galileia, o texto relata que ele leu o profeta Isaías e o interpretou, dizendo que:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.”
— Lucas 4,18-19
O ministério de Jesus está estreitamente relacionado ao evangelho aos pobres. Quais são as boas-novas que iremos levar àqueles que mais carecem? Essa deve ser uma importante questão que a Igreja, com amor e graça, precisa ousar responder com palavras e com ações.
Referências
- BÍBLIA. N. T. Bíblia sagrada: Almeida revista e atualizada. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
- CORTINA, Adela. Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia. Tradução de Daniel Fabre. São Paulo: Editora Contracorrente, 2020. E-book.
- FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Dicastero per la Comunicazione, 2015.
- LEÃO XIV, Papa. Exortação apostólica Dilexi te: sobre o amor para com os pobres. Vaticano: Dicastero per la Comunicazione, 2025.
- PADILLA, C. René. Missão integral: ensaios sobre o Reino e a igreja. Tradução de Emil Albert Sobottka. São Paulo: FTL-B; Temática Publicações, 1992.
- PEDROSA-PÁDUA, Lúcia. A opção preferencial pelos pobres diante da aporofobia: reflexões antropológicas para uma atualização da opção de Puebla. Horizonte: Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, Belo Horizonte, v. 17, n. 54, p. 1479-1502, set./dez. 2019. DOI: https://doi.org/10.5752/P.2175-5841.2019v17n54p1479.
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