Igrejas, qual é o nosso problema?: Uma reflexão a partir do filme “Pequenas Coisas como Estas” e a infeliz dificuldade da igreja em lidar com jovens “pecadoras”

O filme Pequenas Coisas como Estas, dirigido por Tim Mielants, tem como ambiente uma pequena cidade católica irlandesa. O ator Cillian Murphy interpreta Bill Furlong, um vendedor de carvão que vive uma vida simples com a esposa Eileen e as cinco filhas em New Ross, às vésperas do Natal de 1985, quando então ele descobre algo inquietador sobre o convento local e suas “moradoras”.

Ficha técnica:

  • Filme: Pequenas Coisas como Estas (Small Things Like These)
  • Lançamento: 2024 ‧ Drama ‧ 1h 38m
  • Origem: Baseado no livro homônimo da escritora irlandesa Claire Keegan.

“O convento era um lugar de aspecto imponente na colina do outro lado do rio, com portões pretos escancarados e uma série de janelas altas e brilhantes, voltadas para a cidade. […]

As freiras do Bom Pastor, encarregadas do convento, mantinham ali uma escola técnica para meninas, proporcionando-lhes educação básica. Também administravam uma lavanderia. Pouco se sabia sobre a escola técnica, mas a lavanderia tinha boa reputação: restaurantes e pensões, a casa de repouso e o hospital e todos os padres e famílias abastadas mandavam sua roupa para lá.”

— Claire Keegan, Pequenas Coisas como Estas (Cap. 4)

“Administravam uma lavanderia”

Aqui a “ficção” toca perturbadoramente a realidade.

O tal do convento, na realidade, é uma referência ao que foi chamado de “Asilos de Madalena”, controlados em grande parte pela Igreja Católica. Surgindo no século XVIII, chegaram a operar em vários locais da Europa, América do Norte e Austrália, sendo a Irlanda um lugar onde sua presença foi marcante e longeva.

Segundo matéria do jornal O Globo (2014):

“Entre 1922 e 1996, mais de dez mil jovens trabalharam de maneira gratuita em lavanderias exploradas comercialmente por religiosas católicas na Irlanda. As internas, conhecidas como as ‘Irmãs Madalena’, eram jovens solteiras grávidas ou que haviam demonstrado um comportamento considerado imoral no país fortemente católico.”

Uma breve reflexão

Qual é o nosso problema, enquanto igreja, em lidar com tais situações?

Na minha experiência como cristão, em contexto de jovens “achadas em pecado”, o movimento foi o contrário do que era realizado nesses asilos: após uma assembleia, todos concordavam que aquela moça deveria sair da igreja, ser excluída do rol de membros.

Nesse caso retratado no filme e no livro, o movimento era o de colocá-las autoritariamente “dentro da igreja” para se “consertarem”. Ou seja, erramos em ambos os tratamentos.

E o pior: tudo isso em nome de Deus. Pior ainda: tudo isso em nome de Jesus.

Não me admira que as pessoas tenham começado a odiar a religião cristã e seus seguidores. Mateus 10:22 registra um aviso de Jesus de Nazaré, o Cristo:

“Sereis odiados de todos por causa do meu nome.”

De fato, nos tornamos odiados — não por causa do nome de Jesus, e sim pelo modo como utilizamos esse nome.

No entanto, ainda tenho esperança. Em João 4:23, ao conversar com a mulher samaritana, Jesus anunciou:

“Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.”

Eu, diante dessa reflexão, me agarro no “vem a hora” e, por enquanto, deixo o “já chegou” para uma interpretação sob o existencial crístico.

Igrejas crescem, o evangelicalismo se torna popular, mas parece que ainda falta o amor que traz vida ao mundo.

Referências Bibliográficas


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