Amor, memória e tempo: uma análise da canção “Caneta e Papel” de Tiago Arrais

A música sempre teve um papel fundamental em minha vida e penso que assim também deve ser com você. Por isso, quero através desse espaço iniciar uma proposta de pensar algumas canções e refletir através delas. Assim, para dar início a esse projeto, te convido para mergulhamos hoje na profundidade de “Caneta e Papel”, composição de Tiago Arrais.

Ficha Técnica e Informações: 

Esta versão foi lançada em setembro de 2023 como parte do álbum solo de Tiago Arrais intitulado “Canções de Amor”.

Composição: Tiago Arrais.

Intérpretes: Tiago Arrais e LIO (integrante do grupo Tuyo).

Álbum: Canções de Amor (2023).

Produção Musical: BAERD.

Arranjo e Estilo: Minimalista e acústico, focado na condução do piano, voz e arranjos delicados de cordas. Tiago gravou a voz e o piano em um take único e ao vivo para preservar as dinâmicas emocionais da gravação.

Sobre a primeira versão da música: A versão de Os Arrais (2015), lançada no álbum “As Estações”, traz a sonoridade folk e orgânica marcante do duo, conduzida pelo violão e pela harmonia vocal dos irmãos Tiago e André Arrais.

Letra e Análise

Meu bem me dê a sua mão

Ao entrarmos juntos na embarcação

Pro outro lado do mar

Além do que o olho vê

Com o vento em nosso favor

Não temos o que temer

Quem é bem senão alguém a quem desejamos todo o bem? “Meu bem” é a pessoa que ganha a nossa mão, a mesma que usamos em nossos afazeres, para fazer apontamentos ou colaborar com a comunicação. Com a mão interagimos com o mundo. Se lá o bem está, nossa interação sem o bem não se dará. O bem torna-se necessário à vida daquele que assim lhe chama. Por isso bem, pois é precioso, não é passível de desamparo ou abandono, pois vale demais.

O anúncio é claro: estamos juntos nessa, ou melhor, na embarcação. Ela serve para atravessar o mar que, por sinal, sempre tem um outro lado, mesmo que não esteja ainda visível no embarque. Esse barco que parece ser à vela, conta com o vento para prosseguir. E, veja só, que boa notícia: o vento está em nosso favor! Assim, não há o risco de ficar à deriva, estagnado, perdido.

Este trecho parece ser sobre o início da caminhada a dois, o que pode ser percebido como o começo de uma união matrimonial, o início de um relacionamento amoroso. No princípio, de fato, não há o que temer, aliás, medo não é o que nos acompanha, mas sim a excitação, a alegria, a esperança, o sonho, a paixão e o amor.

Tempestades certamente irão nos alcançar

Longe no alto mar sem uma estrela a nos guiar

Mas a calmaria virá

Com águas tranquilas em mãos

Na luz que dá nome à manhã

O eu-lírico, aquele que chama o seu amor de “Meu bem”, lhe diz: “Tempestades certamente irão nos alcançar”. “Certamente” soa como uma declaração madura, sincera, de alguém que parece conhecer bem a vida. Não é algo comum para jovens casais apaixonados. Pois, é realista demais. O amor juvenil e apaixonado prefere permanecer nos ares do idealismo, respira apenas positividade. Porém, quem já sofreu ou viu sofrimentos pela vida sabe, certamente, que o mar nem sempre é calmo, às vezes ele é até agitado demais.

Assim, ele evidencia talvez a melhor das emoções – a Esperança. Pois quem já viveu e viu o que há de pior no mar, também já viveu o suficiente para saber que não há mal que dure para sempre, o sol há de vir outra vez e com ele e sua luz chegará a “calmaria”. Agora, desde a partida, que se tenha a clareza de que momentos difíceis virão, porém a Esperança nos manterá em paz, aguardando tudo isso passar.

Mais perto estaremos do lar

Essa frase se mostra certeira. “Mais perto”, ou seja, ainda não é lá, porém, estamos chegando. Onde? No lar, esse lugar de pessoas reais que dão as mãos e vivem com Esperança, dia após dia, tempos bons e ruins, sabendo que ainda temos o bem e isso basta.

Meu bem não esqueça caneta e papel

Pra pôr em palavras o que iremos ver

O trecho evoca a importância da memória para o amor persistente ou relacionamento duradouro. Se todas as experiências vividas pelo casal fossem esquecidas, a força da relação se desfaleceria. O que torna um relacionamento forte é a lembrança daquilo que se viveu. Quando ambos amantes percebem as experiências vividas juntos, qualquer hipótese de uma vida em outro lugar ou acompanhada de outrem é desprezada.

Na rota diante de nós

Descrita por nossas mãos

Que mapas não podem dizer

Com traços, com pontos, e vãos

Penso que isto é sobre a autonomia do amor. Essa relação recíproca, sustentada por indivíduos diferentes, encontra como resultado algo único. Assim, o plural toma conta da cena. O “nós”, que subentende mais de um, expressa o que há de único em dois. Esse novo ser, o “nós”, tem a autonomia para criar sua própria rota. Esse caminho não é de A e nem de B, mas de AB ou BA. O trajeto não pode ser previsto em nenhum lugar e em nenhum dos amantes. Ele é incerto, por vezes truncado. Ele pode até parar momentaneamente em um ponto ou se perceber em silêncio, em vazio. No entanto, será uma direção apontada por dois, com “nossas mãos”, pois o plural desta palavra não necessariamente exige a participação de mais de um alguém.

Meu bem me dê a sua mão

Ao entrarmos juntos na embarcação

Por fim, volta-se ao início. Na canção, aquilo que antes foi cantado por um, agora é declarado por dois, como se agora tudo aquilo que foi comunicado, percebido, anunciado, fosse então concordado por ambos. Não se trata mais de algo parcial, mas sim de uma declaração conjunta. 

Pensando na realidade do matrimônio, aqui aparece o “sim”, quando um amante diz ao outro: você aceita se casar comigo? E como resposta ouve: sim, aceito. Por isso ambos cantam meu bem, ambos pedem a mão do outro, ambos entendem que a vida agora se dará a partir de um lugar comum e que tem pela frente aquilo que fora anunciado. Porém, mesmo assim, o barco ganha os seus tripulantes. Eles desejam algo em comum, chegar ao lar, ou pelo menos ao mais perto que for possível chegar.


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