A tirania do progresso e o retorno ao corpo sensível

“Transformar caminhada em progresso é elaboração ideológica das elites” – Maurice Merleau-Ponty

Esta frase encontra-se na abertura do livro de Gilberto Dupas – “O mito do progresso” – onde o autor avalia, no decorrer de sua obra, o discurso hegemônico do progresso e a necessidade de re-pensarmos esse caminho a fim de evitarmos ou adiarmos a tragédia que emerge como fruto desse ímpeto sem-limites.

Uma breve nota sobre Merleau-Ponty

Sobre o autor da frase, Maurice Merleau-Ponty foi um filósofo francês (1908 – 1961), ele é situado ao lado de Jean-Paul Sartre como sendo um dos principais expoentes do existencialismo.1 Suas contribuições apresentam-se na fenomenologia, onde se percebe a importância do corpo e sua sensibilidade para a filosofia do pensador. Em seu pensamento percebe-se que:

“O homem é ao mesmo tempo ser corporal e sujeito pensante. O ser é indivisivelmente corpo e pensamento. O pensamento nunca está separado das suas raízes sensíveis, corporais. O corpo próprio, esse corpo vivido do interior, está incrustado de intenções, carregado de significações (estas remetem mais para o «elemento» no sentido grego do que para uma substância)”.2

Assim, observa-se que suas ideias suscitam a importância e necessidade do corpo para o pensar, pois é fundamental a importância da experiência corporal (envolvendo todos os seus sentidos) ao pensador.

Sobre o mito do progresso e seus principais beneficiados

Assim, retornando à frase inaugural, podemos levantar a seguinte questão: A quem interessa o progresso? É claro que, como humanidade, fomos e somos agraciados com cada avanço tecnológico, principalmente nas áreas da saúde, da produção, do transporte, da comunicação. Não está em jogo questionar se nós, enquanto humanidade comum, recebemos ou não benefícios com tais avanços, pois sim, fomos contemplados. O mundo de hoje parece ser bem melhor que em tempos passados. Se considerarmos as sociedade democráticas, podemos perceber grandes avanços nas questões políticas, o conceito e direito de igualdade e dignidade dos sujeitos.

No entanto, a pergunta ainda permanece: O progresso é de maior interesse a quem? Esse questionamento vai ganhar melhor sentido quando avaliamos esse chamado mito do progresso ou quando nos deparamos com a ideia circulante de que progredir não é uma opção, mas um caminho inevitável a todo aquele ou aquela que deseja a vida e sua realização. O que aconteceu foi que se implantou esse mito em todos, de modo que se tornou inaceitável alguém ou alguma sociedade se opor a tal movimento. Quem para, logo é chamado de covarde ou de preguiçoso. Pois: Como assim não quer mais? Como assim não quer progresso?

Quando visto de modo crítico, é bem provável que aquilo apontado por Merleau-Ponty seja de fato uma grande verdade – o contínuo progresso é de interesse das elites. Ou seja, de grupos donos dos meios de produção, donos do capital, que dependem do grande empenho dos operários para o sucesso da instituição que os faz crescer e continuar crescendo. Ao sujeito comum, o progresso é necessário, mas até quando? Alguém experimenta esse tipo de vida que sempre caminha para o sucesso? Ou será que na vida vivida, essa que se dá pelo corpo sensível, o caminho pareça mais com uma montanha-russa do que com um eterno aclive? E talvez montanha-russa não seja também a melhor analogia, pois são muitos os momentos de planalto, em que grandes mudanças não acontecem e o que vemos é apenas um grande terreno sem muitas variações, linear, que não necessariamente é símbolo de fracasso, apenas é estável.

O contentamento independe do progresso

Em detrimento desse mito, da necessidade desse caminho de progresso a todo o tempo, que mais favorece a elite que a base, emerge a ideia de contentamento. É possível ser feliz com pouco, é possível encontrar alegria mesmo na escassez. E isto é extremamente importante e necessário, pois é o que nos mantém de pé quando a vida parece querer nos tragar. Não é preciso sempre progredir pois ninguém só progrediu. Em algum sentido, o equilíbrio da existência nos alcança – vitória/derrota; ganho/perda; crescimento/diminuição; progresso/regresso; vida/morte.

Por isso, que a nossa caminhada seja apenas uma caminhada, um momento sensível a momentos, lugar onde o pé toca o chão e o sente. Nem sempre há escadas no caminho. Atrelar a felicidade, alegria e sucesso com certo movimento ascendente só pode nos levar a frustração quando descobrirmos que isso nunca passou de uma ideia insensível, desconectada do corpo, objetivante de algo que muito provavelmente nem queremos ou precisamos. Sucesso é, no exercício do viver, encontrar sorrisos e alegrias.

Referências

DESCAMPS, Christian. Os existencialismos. In: CHÂTELET, François (dir.). A filosofia do século XX. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1981. v. 4, cap. 5, p. 201-237. (História da filosofia). 

DUPAS, Gilberto. O mito do progresso: ou progresso como ideologia. São Paulo: Editora UNESP, 2006.

MAURICE Merleau-Ponty. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. [S. l.]: Fundação Wikimedia, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maurice_Merleau-Ponty. Acesso em: 5 ago. 2026.

  1. DESCAMPS, C., 1981, p. 202 ↩︎
  2. DESCAMPS, C., 1981, p. 218 ↩︎

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