O Produto da Fé: Quais são os ingredientes do sucesso das igrejas pós-modernas?

Há um dado facilmente verificável no Brasil que apresenta o crescimento do número de evangélicos no país.1 Essa informação pode ser notada na vida cotidiana, pois certamente você mora bem próximo de uma ou mais igrejas evangélicas. Como se não bastasse esse fato, é de fácil percepção também a intensidade do tema “evangélicos” na mídia, até mesmo nas mais tradicionais, como a TV aberta, que hoje oferece novelas e programas com referências a essa vertente do cristianismo ou aos seus interesses. 

No entanto, também podemos perceber que existe um número considerável de igrejas que não revelam essa estatística em sua membresia, pois estas apresentam declínio no número de integrantes com o passar dos anos. Geralmente são aquelas mais tradicionais, rígidas, institucionais, com forte apelo moral. Por outro lado, há igrejas que crescem a tal ponto de nos fazer pensar que esse percentual de crescimento dos evangélicos está até baixo. São essas as grandes igrejas, poderosas, com forte mídia e publicidade, algumas parecem até trabalhar com o sistema de franquias (para uma crítica sobre esse fenômeno eclesial, confira minha postagem sobre tal assunto). 

Por isso, neste texto gostaria de avaliar o que poderia ser o ingrediente do sucesso de tais igrejas. Pois, se uma boa parte contraria os dados e apresenta sucessivos decréscimos de sua membresia, como certas instituições conseguem tamanho sucesso e crescimento? Será que o sucesso é apenas o êxito em trabalhar melhor com a tecnologia e comunicação digital? Ou poderíamos notar outras questões que estão em jogo? Isto é o que veremos a seguir.

A partir de 1960, aproximadamente, a sociedade ocidental, nesse período pós-guerras mundiais, passou a lidar com uma intensa e agressiva força chamada consumismo. O mundo passou a ser direcionado para um único sentido – o consumo. Lembro-me de quando assisti “MINIMALISMO: Um Documentário Sobre as Coisas que Importam” (2016) e me deparei, na ocasião, com a observação de que o impulso por trás do nosso hábito de comprar não se dá em decorrência do materialismo, mas sim do consumismo, pois não nos importa ter e ponto, mas sim ter e novamente ter, sempre buscando ter algo novo. Diante disso, vivemos em uma sociedade do consumo, tão bem apresentada pelos pensadores Zygmunt Bauman (1925-2017) e Gilles Lipovetsky (1944-) através de suas obras e críticas à sociedade pós-moderna.

Quem é o ser humano pós-moderno e o que ele busca?

Se uma igreja é composta de pessoas e encontra na reunião delas a sua melhor definição, lógico que considerando a comunhão orientada à adoração à Trindade, então compreender essas pessoas e como elas reagem ao seu tempo é fundamental para avaliarmos, inicialmente, quem é o público de interesse das comunidades cristãs.

Segundo Bauman: 

“Numa sociedade de consumidores, todo mundo precisa ser, dever ser e tem de ser um consumidor por vocação (ou seja, ver e tratar o consumo como vocação). Nessa sociedade, o consumo visto e tratado como vocação é ao mesmo tempo um direito e um dever humano universal que não conhece exceção”.2

Nesse contexto de consumo, ser consumidor não se trata de algo a ser escolhido pela pessoa, mas, sendo parte dessa sociedade, seu comportamento será direcionado por esse impulso consumista e na realização dele a pessoa encontra sua realização, pois, essa é sua vocação. Em outras palavras, o ser humano pós-moderno da sociedade do consumo e que é cristão evangélico tem por objetivo consumir. Isso é o que ele faz e o que lhe dá prazer.

Lipovetsky esclarece que “o Homo religiosus aparece mais como a continuação do Homo consumericus por outros meios que como sua negação”.3 Assim, podemos perceber que essa pessoa cristã e evangélica que hoje busca uma igreja para congregar, em certo sentido, também busca um produto para adquirir. Com isso, aquele que oferecer um produto melhor ou mais atraente, poderá obter maior êxito na conquista daquele cliente.

O produto de sucesso das grandes igrejas

Inicialmente, quero que você faça um breve exercício de reflexão e lembre agora de pelo menos três igrejas de sucesso – me refiro a influência, tamanho/poder material e quantidade de integrantes/membros. Elas se assemelham ou são bem diferentes umas das outras? Me arrisco a dizer que você respondeu “sim” para essa última pergunta. Pelo menos é o que observo na grande maioria das igrejas que alcançam sucesso como delimitado acima. Geralmente igrejas de sucesso e que traduzem esse crescimento citado anteriormente do campo evangélico são aquelas que possuem: músicas bem executadas e equipe de louvor de qualidade, oferecendo canções contemporâneas e conhecidas; pastor(a) ou pastores(as) carismáticos e ou com presença marcante; forte participação nas redes sociais, como por exemplo Instagram e Youtube, as preferidas; ambientes com forte apelo ao oferecimento de uma agradável e/ou marcante experiência. Creio que essas características sejam suficientes para encontrarmos um ponto comum.

Voltando ao que foi exposto anteriormente, se as pessoas hoje buscam um produto para consumir, então as igrejas que possuem as melhores ofertas acabam por conquistar um maior número de pessoas. Dessa forma, quando pensamos em igrejas que têm por pretensão alcançar sucesso na pós-modernidade, lidando com esse sujeito, é notável a presença de um intenso aprimoramento dos seus meios: música, pregação, ambiente, publicidade. Tudo procura alcançar um nível de excelência, pois “o cliente tem sempre a razão”, ou seja, ele é o alvo e o fim. Se ele chegar à igreja para consumir e não encontrar algo que goste, simplesmente buscará em outro lugar aquilo que demanda.

Sustentando essa reflexão desenvolvida até aqui, o pesquisador Oséias Silva dos Santos comenta que:

“Lipovetsky entende que depois que o ‘crer’ também foi individualizado e submetido à tirania da subjetividade pós-moderna, como consequência, a religião tornou-se, mas um produto de consumo. […] A Experiência religiosa tem sido formatada pela lógica do consumo hipermoderno, a dimensão religiosa assimilou a dinâmica consumista”.4

E ainda acrescenta ao dizer:

“Espiritualidade é produto que se compra e que se vende. O que antes era o principal foco da religião, a saber, a salvação no outro mundo, agora, o que impulsiona o religioso é a sua felicidade intramundana”.5

Considerações finais

Apesar do tom crítico desse texto, não tive por objetivo realizar um ataque às instituições que cederam às forças do tempo. Vejo nelas apenas um reflexo dessa pós-modernidade. Até porque a igreja é liderada, gerenciada e administrada também por pessoas que vivem esse tempo e estão sujeitas às suas forças. Querer obter sucesso em algo que se faz é um desejo normal, humano. Essa leitura, de ótica consumista, vejo como bem coerente com nosso tempo e que, no mínimo, nos leva a refletir sobre o que fazemos e o que queremos ou buscamos, quando falamos de igreja.

No entanto, é claro que podemos ter problemas com esse movimento consumista realizado dentro das comunidades evangélicas. Pois, quando o meio se torna fim, claramente o propósito principal foi perdido, sabe-se lá onde ele ficou no caminho. Por isso, cabe a cada igreja uma autocrítica, autorreflexão, procurando analisar se aquilo que é feito se ainda preserva o mesmo fim primordial – salvação do mundo.

É claro que cabe observar também que, não devemos assumir os resultados dessa pesquisa como justificativa para atacar aqueles que crescem sob essa lógica consumista e nem para supervalorizar as igrejas que “não cederam ao tempo” e ficaram engessadas em outro tempo, talvez a modernidade. A falta de comunicação eficiente com a pessoa pós-moderna deve ser vista como algo negativo, pois o evangelho independe da cultura e é trans-temporal. A mensagem de Jesus de Nazaré, o Cristo, pode ser anunciada tanto a judeu como a grego (Gl 3,28), tanto a moderno como a pós-moderno, tanto a materialista como a consumista. 

Por fim, percebeu que a grande questão é o que acontece no depois. Algo que muitas igrejas pós-modernas têm falhado é em não conseguir avançar para uma segunda fase, permanecendo elas fechadas na oferta, na conquista de novos consumidores, pensando qual será a nova campanha e o novo projeto. Existe uma grande dificuldade com a fidelização dos novos membros. Muitos entram, mas muitos saem. O problema não são só as estratégias de retenção do cliente ou do pós-venda, mas sim o que se faz com o crente, o que lhe é proporcionado além dos produtos que ele consumiu. Será que ele encontrou Cristo? Pois esse, mesmo que se tente, não pode e nunca poderá ser vendido. Ele é (de) Graça.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.

CYPRESTE, Judite. MAPA: Qual é a religião mais popular da sua cidade? G1, São Paulo, 6 jun. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/censo/noticia/2025/06/06/mapa-censo-ibge-religiao.ghtml. Acesso em: 31 jul. 2026. 

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MINIMALISMO: Um Documentário Sobre as Coisas que Importam. Direção: Matt D’Avella. Produção: Catalyst Films e Asymmetrical Press. [S. l.]: Desmistificando, 13 dez. 2019. 1 vídeo (1h 18min). Publicado pelo canal Desmistificando. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wnXkr-_wlrM. Acesso em: 31 jul. 2026. 

SANTOS, Oséias Silva dos. O Individualismo Pós-Moderno a partir de Gilles Lipovetsky e suas implicações para a experiência religiosa contemporânea. Revista Unitas, v. 8, n. 1, p. 90-118, 2020. Disponível em: https://revista.fuv.edu.br/index.php/unitas/article/view/986. Acesso em: 31 jul. 2026. 

  1.  CYPRESTE, 2025. ↩︎
  2.  BAUMAN, 2008, p. 73. ↩︎
  3.  LIPOVETSKY, 2007, p. 133. ↩︎
  4.  SANTOS, 2020, p. 114. ↩︎
  5.  SANTOS, 2020, p. 115. ↩︎

Descubra mais sobre CRENTEQUESABE

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário