Muitos pregam bem, mas poucos falam coisas importantes

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Você já se deparou com pregações belíssimas, marcadas por uma oratória impecável e o uso didático dos melhores recursos? Felizmente, a Igreja sempre cultivou a busca pela excelência no púlpito, preservando a arte de comunicar bem. No entanto, certo dia me peguei refletindo sobre algo incômodo: porque temos assistido a tantas pregações perfeitamente executadas, mas que quase não anunciam coisas realmente importantes? É sobre essa lacuna que quero conversar com você hoje. Vamos juntos?

Uma breve nota sobre a retórica

Aquela que veio a ser chamada de “a arte de falar bem” encontrou na Grécia Antiga, com as cidades-Estados (algumas já com sistema democrático), um lugar de suma importância devido ao papel das Assembleias1 — reunião “onde se faziam as leis, e os tribunais, onde elas eram interpretadas e aplicadas”.2

No século V a.C., em Atenas e em outra cidades gregas, os sofistas, uma espécie de professores e intelectuais, ofereciam uma educação em aretē (virtude ou excelência). Na Atenas democrática:

“[…] aretē era cada vez mais compreendido em termos da capacidade de influenciar seus concidadãos em reuniões políticas por meio da persuasão retórica; A educação sofisticada tanto surgiu quanto explorou essa mudança. Os representantes mais famosos do movimento sofístico são Protágoras, Górgias, Antífona, Hipias, Pródico e Trasímaco”.3

Nesse contexto falar bem era fundamental (e ainda é). Nos debates e discussões, saber se posicionar, defender suas ideias e se expressar era algo imprescindível para se obter algum sucesso para a sua causa. Como herança desse período, até hoje, na política, o bom discurso tem elevado valor. Pois saber se comunicar e ser persuasivo é uma condição determinante para o sucesso do candidato.

Pregação, discurso, retórica

Quando pensamos em retórica e oratória no ambiente eclesiástico, tendemos a utilizar um nome mais “santo” para isso, que seria, na formação teológica, a homilética. Embora possua suas peculiaridades, ela tem como um dos propósitos formar o(a) pastor(a) como um(a) bom(boa) comunicador(a).

Na vida pastoral, principalmente no exercício da pregação, sobressaem-se aqueles ou aquelas que conseguem de modo mais eficiente realizar essa tarefa. Você deve se lembrar de alguma pregação que o pastor ou pastora fez uma encenação, compartilhou uma frase específica e solicitou a sua repetição, ou até mesmo contou uma história ilustrativa.

Tais recursos funcionam muito bem para que o conteúdo seja comunicado adequadamente e nós, enquanto ouvintes, possamos compreender e reter o que é anunciado.

Falar bem X Falar coisas importantes

Certo dia me veio uma reflexão. Eu estava percebendo que muitos pastores e pastoras utilizavam excelente retórica, dominando de modo magistral essa arte milenar, mas não anunciavam coisas importantes. Então comecei a reparar em como havia grande esforço para a realização do método e talvez o resultado estivesse sendo deixado de lado ou recebendo menos investimento do preletor(a).

Poucas vezes me deparei com temas importantes sendo levados para cima do púlpito. Refiro-me àqueles que nos fazem voltar à vida de modo diferente, transformados. Aquelas mensagens que tocam a vida da segunda-feira, não apenas a vida dominical.

Dessa forma, fui percebendo que:

  • Muitos pregavam sobre uma salvação do céu, mas não logravam êxito em demonstrar como tal salvação se manifestava na terra;
  • Alguns pregavam sobre santidade, mas o que é ser santo em um mundo decaído e que cada vez mais tem se afastado de Deus?
  • Outros falam de intimidade com o Pai, amar Jesus. Porém, muitos irmãos continuavam sós, em suas lutas e crises, às vezes desamparados. Tudo isso como se o amor ao próximo, real e não apenas teórico, não fosse importante como o amor a Deus.

Considerações finais

Diante disso, confesso que vejo muita abordagem sobre meio e pouco sobre fim. Muito sobre como ganhar pessoas e menos sobre o que o evangelho tem a oferecer para cada uma. Muito sobre coisas secundárias, enquanto o que é primário tem sido deixado de lado.

Penso que não é preciso tirar os olhos dos céus, mas carecemos de sermões realizados com os pés nas ruas, capazes de sentir a vida vivida. E assim, oferecer um alimento orgânico, e não apenas os ultraprocessados e de boas embalagens.

Coisas importantes nunca saem de moda

Assim, gostaria de expor um breve exemplo do que tenho pensado ser “coisas importantes”. Para isso, destaco: desigualdades, dignidade humana, exclusão e marginalização social, racismo, machismo, violência contra a mulher, crise socioambiental, saúde e valorização do corpo, crítica aos conceitos vigentes e adoecedores da humanidade, dentre tantos outros.

Sei que os púlpitos não devem ser lugar apenas de reflexão contemporânea, pois há verdades atemporais que constituem a teologia e que devem permanecer nos sermões. Porém, o que vejo como preocupante é como tais temas, tão atuais e pulsantes na vida da Igreja, por vezes nem são mencionados ou tocados nas pregações. Sei que “coisas importantes” não são apenas essas que destaquei ou similares, mas elas também o são.

Esse texto não é uma crítica para que deixemos de lado toda ornamentação do sermão ou uso de recursos didáticos. No entanto, escrevo para que possamos reavaliar o conteúdo de nossas mensagens, para saber, aproveitando a analogia do alimento, se o pão que temos oferecido não tem apenas uma boa embalagem, mas também ótimos nutrientes.

Referências

DUKE, George. The Sophists. In: Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://iep.utm.edu/sophists/. Acesso em: 11 ago. 2026.

FRANCO, Augusto de. Sócrates contra a retórica – O Julgamento de Sócrates de I. F. Stone – 5. Dagobah, 14 fev. 2019. Disponível em: https://dagobah.com.br/o-julgamento-de-socrates-de-i-f-stone-5/. Acesso em: 11 ago. 2026.

  1. Note que “ekklesia” significa “assembleia”, reunião ou congregação de pessoas chamadas ou convocadas ↩︎
  2. STONE, 1988 apud FRANCO, 2019 ↩︎
  3. DUKE, 2026 ↩︎


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