Diante dos dados de religião do último censo do IBGE (2022), publicados em 6 de junho de 2025, os Evangélicos apresentaram significativo aumento em comparação à última pesquisa (2010). Porém, um outro índice tem se mostrado relevante nesse quadro, trata-se do crescimento daqueles que são chamados “desigrejados”. Disto isto, ergue-se o questionamento: seria essa uma crise advinda apenas da pós-modernidade ou será que há também um descontentamento em relação às instituições religiosas – Igrejas?
A pós-modernidade e o enfraquecimento das instituições
Segundo o filósofo francês Gilles Lipovetsky (1944-), no livro “Os tempos hipermodernos”, a sociedade atual enfrenta o enfraquecimento das instituições e das suas consequentes regulações. O autor comenta que:
A cultura hipermoderna se caracteriza pelo enfraquecimento do poder regulador das instituições coletivas e pela autonomização correlativa dos atores sociais em face das imposições de grupo, sejam da família, sejam da religião, sejam dos partidos políticos, sejam das culturas de classe. Assim, o indivíduo se mostra cada vez mais aberto e cambiante, fluido e socialmente independente.
(LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Tradução de Mário Vilela. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004. p. 83)
Essa atual disposição conduz a pessoa para a independência, liberdade, que consequentemente desestimula a crença e confiança nas instituições, como era na Modernidade. Esse fenômeno social, que fica mais forte em cada geração, vem mudando a forma como o ser humano se relaciona, crê, projeta. Nesse sentido, é notório perceber que a religião, dependente do sistema institucional, vem perdendo espaço na contemporaneidade.
O senso de 2022 e o crescimento no percentual dos “sem religião”
Os dados do censo 2022, além de mostrarem o crescimento do número de Evangélicos, também expõe o aumento no quantitativo dos grupos referentes a: Religiões de matriz afro, Outras religiosidades e Sem religião. Para se ter uma noção mais fiel desse aumento, é possível observar os dados a seguir:
📉Católicos são 56,7% – diminuição de -12,7 pontos percentuais (- 8,3% em relação a 2010)
📉Espíritas são 1,8% – diminuição de -0,3 pontos percentuais (-14,3% em relação a 2010)
📈Evangélicos são 26,9% – aumento de 5,2 pontos percentuais (+23,9% em relação a 2010)
📈Religiões de matriz afro (classificadas como Umbanda e Candomblé, mas há outras neste grupo) são 1,00% – aumento de + 0,7 pontos percentuais (+233% em relação a 2010)
📈Outras religiosidades são 4,00% – aumento de + 1,3 pontos percentuais (+48% em relação a 2010)
📈Sem religião são 9,3% – aumento de +1,4 pontos percentuais (+17% em relação a 2010)(EVANGELISTA, Ana Carolina; CUNHA, Magali (orgs.). Um Brasil mais plural? Reflexões sobre os dados de religião do Censo 2022. Rio de Janeiro: ISER, 2025. Disponível em: https://iser.org.br/noticia/um-brasil-mais-plural-um-primeiro-olhar-sobre-os-dados-de-religiao-do-censo-2022/. Acesso em: 10 jul. 2026.)
Nesse contexto, o que chama a atenção é o crescimento do grupo que se denomina “sem religião”, pois eles passaram a representar quase 10% da população. O IBGE apresenta através de um gráfico a alteração desses percentuais desde 1872, onde fica mais claro o exponencial crescimento desse grupo, acompanhando os evangélicos:

Assim, cabe ressaltar que nesse grupo não se encontram apenas pessoas atéias ou que não expressam sua fé, pois há também aqueles que são chamados de “desigrajados”.
“Desigrejados”: longes da instituição, mas próximos de Deus
Zé Barbosa Junior comenta que dentre esse grupo autodenominado “sem religião”, 41,9% são adolescentes. E explica que esses números carregam em si uma complexidade do fenômeno, o que já foi observado anteriormente, pois não se trata apenas do afastamento da religião, “mas uma transformação na forma como a espiritualidade é percebida e vivida”. Segundo o autor:
Muitos jovens continuam acreditando em Deus, em valores espirituais ou em princípios religiosos. O que muda é a relação com as estruturas tradicionais que historicamente mediaram essa experiência.
(BARBOSA JUNIOR, Zé. Foguetes sem religião: adolescente e jovens abandonam igrejas, mas não a fé. Revista Fórum, Brasil, 7 abr. 2026. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/foguetes-sem-religiao-adolescente-e-jovens-abandonam-igrejas-mas-nao-a-fe/. Acesso em: 10 jul. 2026.)
Essa desinstitucionalização da prática religiosa ganha combustível em um mundo onde a internet se apresenta como principal meio de conexão entre as pessoas, principalmente as jovens. Mesmo sem uma Igreja, o ou a crente consegue acesso à Palavra (Bíblia), à livros devocionais e teológicos, à debates e explicações sobre a fé através de podcasts, à reuniões presenciais ou através de vídeochamada, à pregações, à cursos. Tudo está ali, bem perto e presente, seja através de um computador ou, mais comumente, por meio de um smartphone. Esses são frutos de um novo tempo, pós-moderno, desinstitucionalizado. Mas, será que há outro motivo para tal afastamento entre pessoas e Igrejas?
A descredibilidade das Igreja e dos seus líderes
Na mesma matéria citada, Zé Barbosa Junior comenta que dentre as diversas razões para tal fenômeno dos “desigrejados”: “Muitos jovens relatam a frustração com lideranças religiosas, especialmente diante de escândalos financeiros, abusos espirituais e incoerências entre discurso e prática”. E acrescenta ao dizer que: “A politização da fé também aparece como fator de distanciamento, sobretudo entre aqueles que rejeitam a mistura entre religião e projetos de poder”. Esse é um ponto interessante nesse quadro. Diante do esvaziamento de muitas igrejas (e aqui prefiro me referir às evangélicas), percebe-se não apenas um reflexo dos tempos atuais ou pós-modernidade, mas também uma desconfiança, descontentamento direto devido aos frequentes escândalos que emergem no debate público. Isso, somado ao indevido uso do púlpito para politicagem, o que mais uma vez pode acontecer nesse ano eleitoral, resulta em igual descrédito para com a Igreja, levando muitos para fora da instituição, mas não para longe da fé, pois essa independe das estruturas religiosas, mesmo que essas cumpram um importante papel na expressão da fé, principalmente comunitária.
Considerações finais
Por fim, importa perceber que o mundo mudou. As fortes tendências da pós-modernidade não passariam pela Igreja-instituição sem modificá-la. Nesse sentido, os que optaram por permanecerem mais Modernos, acabaram tendo que lidar com um significante esvaziamento de sua membresia. Por outro lado, aqueles que preferiram dialogar com as mudanças desse tempo passaram a atrair os mais jovens e, mesmo diante dos desafios contemporâneos, conseguiram apresentar crescimento. Porém, é preciso perceber o surgimento da forte presença dos chamados “desigrejados”. Aqui, não penso haver a necessidade de demonizar as pessoas que seguem essa tendência mais independente e livre. Desde que consigam viver em comunidade e ter comunhão, essa nova forma de expressar a fé pode gerar bons frutos. Contudo, o que realmente deveria preocupar às Igrejas, os crentes e suas lideranças é a presença constante de escândalos por parte daqueles que dizem professar a fé em Cristo Jesus. Alguns irmãos e irmãs, diante de tais situações pecaminosas, conseguem, mesmo que sob o título de “desigrajados”, permanecer na fé. Mas, o que se pode dizer daqueles que, devido à grande descontentamento com a religião e seus expoentes, se distanciaram da prática da fé? Como disse Jesus:
Mas, se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar.
Mateus 18,6
Diante disso, cabe a cada crente saber que, mesmo que o tempo apresente suas tendências, mesmo que pessoas façam o uso errôneo e pecaminoso da fé, Cristo permanece, em sua humildade, amor e na realização da salvação. Que haja mais oração ao invés de condenação. Deus permanece julgando e sua justiça há de prevalecer. Se por acaso você está enfrentando um conflito em relação à fé e que tem como motivo aquilo que foi exposto aqui, em relação aos maus exemplos, procure permanecer em Cristo, seja dentro de uma Igreja-instituição ou fora dela. No entanto, se possível, se esforce para encontrar uma comunidade, mesmo que ela não ofereça um edifício. A comunhão não pode ser negligenciada.
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