Cuidando da criação: A questão ambiental pela perspectiva cristã

No domingo dia 02/10/2022, tive a oportunidade de compartilhar uma visão ecoteológica com a minha Igreja (assista aqui a mensagem na íntegra). E, por perceber que esse tema é necessário a todos nós crentes, resolvi adaptar o sermão para essa postagem, visando transmitir os princípios que compartilhei, a fim de promovermos essa consciência do cuidado com a Criação de Deus.

INTRODUÇÃO

De aproximadamente um ano para cá eu tenho me debruçado no estudo sobre a questão ambiental, buscando perceber como nós cristãos devemos nos relacionar com a Natureza.

Tenho me esforçado em leituras de obras cristãs sobre o tema (que são poucas) e pude recentemente participar de um retiro dentro desta temática (escrevi sobre ele aqui), além de começar um curso sobre Ecoteologia pela ABC². Tudo isso porque  tenho percebido dia após dia a necessidade de nós cristãos falarmos sobre a Criação de Deus. Se cremos que Deus criou o mundo, então a destruição dele deve nos importar mais do que àqueles que não veem Deus como Criador.

Por isso, nesta reflexão, procurarei não só mostrar um retrato da crise ambiental atual, mas o valor da natureza e a nossa responsabilidade como filho de Deus mediante toda a criação.

1 – O VALOR DA NATUREZA E DE SEUS VIVENTES

1.1 – A ATUAL CRISE AMBIENTAL E A DESTRUIÇÃO DA CRIAÇÃO

Segundo matéria do site do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz – Antonio Ivo de Carvalho, com o título “Antropoceno: A Era do colapso ambiental”, de 16/01/2020:

  • Nós humanos destruímos cerca de 15 bilhões de árvores por ano, enquanto o aparecimento de novas árvores e o reflorestamento é de somente 5 bilhões de unidades. Ou seja, o Planeta está perdendo 10 bilhões de árvores por ano e pode eliminar todo o estoque de 3 trilhões em 300 anos.
  • Com o aumento da temperatura do planeta, potencializado pela queima de combustíveis fósseis, em um futuro não distante grande parte das terras hoje férteis se transformarão em desertos, colocando em grande risco o sistema alimentar necessário a todos nós. Além disto, uma consequência desse aquecimento é o derretimento das calotas polares, que geram o aumento do nível dos oceanos, colocando em risco as cidades e ecossistemas litorâneos.
  • Outro problema é a perda de biodiversidade: de acordo com o Relatório Planeta Vivo (2018), divulgado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o avanço da produção e consumo da humanidade tem provocado uma degradação generalizada dos ecossistemas globais e gerado uma aniquilação da vida selvagem: as populações de vertebrados silvestres, como mamíferos, pássaros, peixes, répteis e anfíbios, sofreram uma redução de 60% entre 1970 e 2014.
  • Ainda sobre o assunto, conforme a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês), da ONU, nós temos 1 milhão de espécies ameaçadas de extinção no planeta.

Há muitos outros problemas que caracterizam essa crise ambiental que vivemos. Acima procurei esboçar apenas uma parte de todas as implicações que a má relação estabelecida entre humanos e não-humanos pode gerar. Por isso vemos pessoas, países se levantando em defesa do ambiente, pois ele está sendo ameaçado. E, o pensamento é lógico: Se nós vivemos no planeta Terra, logo a qualidade dele é determinante para a qualidade da nossa vida. Se ele for destruído, logo também nós seremos, além de todas as outras formas de vida que conhecemos (ou a maior parte delas).

Assim, o mundo preocupa-se em dar uma RESPOSTA À CRISE AMBIENTAL. Mas e nós crentes, o que temos a ver com isso? Devemos lutar também pelo bem da casa comum? Com que intenção? Favorecer unicamente a nossa própria vida? Responder essas questões implica perceber os valores de tudo aquilo que está envolvido. Neste caso, a natureza e seus viventes. Essa crise para nós é bem mais grave, pois não é apenas a DESTRUIÇÃO DA NOSSA CASA (ECO – OIKOS), mas também a DESTRUIÇÃO DA CRIAÇÃO DE DEUS.

1.2 – AS HISTÓRIAS INFANTIS E A VERDADE SOBRE A CRIAÇÃO

Depois de crescido, poucas vezes ouvi na Igreja algo referente à criação de Deus, à natureza, aos animais. Geralmente as pregações concentram-se em temas teológicos como Salvação, Justificação, Santificação, Redenção, dispensando outros temas também teológicos, como a Doutrina da Criação.

Entretanto, me lembro de por vezes na “salinha das crianças” cantar músicas, ouvir histórias e fazer atividades que apresentavam DEUS como o Criador de um mundo bom, cheio de árvores, animais, estrelas, sol, terra, pedra. Esse tema infelizmente é deixado para traz quando nos encontramos mais “maduros”, “inteligentes”, ou seja, quando deixamos de ser crianças. Interessante lembrar que Jesus usa as crianças como exemplo a se seguir (Mateus 18.1-3).

Quando vemos Deus como criador do mundo, imediatamente olhamos para o mundo como criação de Deus. Se Deus fez a árvore, a árvore foi feita por Deus. Com isso, o valor do mundo material cresce, pois em toda criação existe a atitude benéfico-criativa do Criador.

O texto bíblico que nos apresenta essa verdade sobre Deus e a natureza está em Gênesis 1. Resumidamente temos:

No princípio, criou Deus os céus e a terra.

Gênesis 1.1
v.3 Deus fez a luzv.4 “E viu Deus que a luz era boa”
v.9-10 Deus, após criar águas e céus, separou uma parte seca e a chamou de Terra.v.10 “E viu Deus que isso era bom”
v.11 Deus fez as plantas, sementes, árvores frutíferas.v.12 “E viu Deus que isso era bom”
v.14-17 Deus fez os luzeiros nos céus, o Sol, as estrelas.v.18 “E viu Deus que isso era bom”
v.19-21 Deus criou os animais: aquáticos, aves.v.21 “E viu Deus que isso era bom”
v.24-25 Deus fez os animais terrestres – selvagens e domésticosv.25 “E viu Deus que isso era bom”
v.26-30 Deus faz o homem e a mulherv.31 – Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom. Houve tarde e manhã, o sexto dia.

DEUS NÃO SÓ FEZ O MUNDO, MAS O CONSIDEROU BOM.

A crise ambiental que vivemos é na verdade a DESTRUIÇÃO DAQUILO QUE DEUS CRIOU E QUE ELE CONSIDEROU BOM. Nós não devemos lutar pela valorização da natureza e de seus viventes só porque precisamos deles para viver ou porque eles são bonitos, legais, exóticos. Mas porque TODOS NÓS – humanos e não-humanos, somos a BOA CRIAÇÃO DE DEUS. Existe uma igualdade aqui que exige uma harmonia de vida – conviver.

Destruir a natureza é destruir a criação.

Acabar com as árvores é acabar com a criação de Deus.

Acabar com a vida animal é acabar com a criação de Deus.

Nós devemos cuidar da natureza (Criação), não só pelo o que ela nos representa, mas também pelo o que ela representa para DEUS. Aqui entra a teologia. Esta percepção é mais divina do que humana. É bom, foi isso o que Deus viu. Se você acaba com o que é bom, só resta o que é mau.

2 – A RESPONSABILIDADE DOS FILHOS DE DEUS

Primeiramente é importante definirmos que são os filhos de Deus segundo a Bíblia. Para isso, podemos perceber o que João diz em seu Evangelho sobre estes filhos de Deus:

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.

João 1.12,13

Após essa percepção, nos cabe pensar em quais são as nossas responsabilidades como filhos de Deus em relação à Criação.

2.1 – OS ZELADORES DA BOA CRIAÇÃO

Desde o Gênesis a nossa responsabilidade com a Natureza foi revelada. Após Deus criar o mundo e dizer que era bom, Ele dá ao humano um direcionamento, pois este deveria ali estar como imagem de Deus para toda a Criação.

Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.

Gênesis 2.15

É interessante observar essas duas valiosas palavras encontradas nesse verso e os seus respectivos significados:

  • CULTIVAR: tratar (a terra); lavrar
  • GUARDAR: proteger, preservar

A relação entre humano e o restante da natureza antes da Queda era positiva. Não bastava utilizar a Criação para o bel-prazer e fim. Embora o cultivar dê a ideia apenas de trabalho, o segundo verbo – guardar – revela a forma como esse trabalho deve ser feito. Ou seja, a terra precisava continuar saudável. As árvores precisavam continuar dando frutos. Os animais deveriam continuar multiplicando as suas espécies. Era um trabalho ecológico, não exploratório e violento. Esta ideia é a que hoje dá-se o nome de AGROECOLOGIA. Para Ana Primavesi:

A Agroecologia baseia-se praticamente em 5 pontos fundamentais:

(1) solos vivos (agregados) que se revolvem pouco ou nada e que, se puder, mantém-se  em seu estado natural.

(2) biodiversidade

(3) proteção do solo contra aquecimento excessivo e o impacto da chuva e contra o vento permanente.

(4) posicionamento correto das raízes

(5) auto confiança do agricultor

https://anamariaprimavesi.com.br/2020/01/27/agroecologia-e-a-importancia-do-agricultor/

A intenção de Deus era fazer com que o humano tivesse uma boa relação com o restante da Criação – ecossistema. Até mesmo os animais deveriam receber cuidado, proteção, nomes.

Havendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais do campo e todas as aves dos céus, trouxe-os ao homem, para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a todos os seres viventes, esse seria o nome deles.

Gênesis 2.19

2.2 – AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO E A PERVERSÃO DAS RELAÇÕES

Contudo, a entrada do pecado no mundo corrompeu as boas relações. O que antes se resumia em uma vida harmoniosa entre toda a boa Criação divina, passou a se tornar um conjunto de relações exploratórias. A Queda foi o momento marcante para essa alteração.

  • A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

Gênesis 2.16,17
  • HOMEM E MULHER COMEM DESTA ÁRVORE E DESOBEDECEM A DEUS

Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.

Gênesis 3.6
  • AS CONSEQUÊNCIAS DO PECADO

GÊNESIS 3

v.14 a Serpente se tornou maldita entre todos os animais e passou a rastejar sobre o teu ventre;

v.15 Inimizade entre a serpente e sua descendência e a mulher e sua descendência;

v.16 A mulher teria dor ao dar à luz filhos e seria governada pelo marido;

v.17 A terra se tornou maldita por causa do homem. Ela produzirá também cardos (ervas daninhas) e abrolhos (pode ser espinhos) – (Gênesis 3:18)

v.19 O homem deveria trabalhar arduamente para obter alimento. E, no fim da sua vida, voltaria ao pó da terra.

O pecado corrompeu todas as relações – humano e natureza, homem e mulher, espécie humana e espécie não-humana, humano e trabalho, humano e Deus. Assim passou a viver a humanidade decaída, longe do Jardim, longe de Deus, seguindo o próprio ventre, dando início ao hamartanocentrismo (a centralização do pecado e a adoração do mesmo).

pois todos pecaram e carecem da glória de Deus

Romanos 3.23

2.3 – A NOVA CRIAÇÃO E A GRANDE RECONCILIAÇÃO

Isoladamente nós humanos seríamos impossibilitados de corrigirmos as relações e nos livrarmos das consequências do pecado. Entretanto, o Deus que criou coisas boas é também amor. Dessa forma Ele achou graça em Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Israel, Davi, até que em JESUS o PRÓPRIO DEUS se fez carne e habitou entre nós (João 1.14). Nessa encarnação a existência experimentou o perdão através do sacrifício. Nasceu então a justificação por meio de Jesus Cristo.

Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo.

Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida.

Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.

Romanos 5.17-19

Agora, justos, experimentamos a reconciliação, a possibilidade de retorno ao Jardim e à boa criação livre da corrupção (Apocalipse 22.14). Essa realidade que alcançará sua plenitude no fim dos tempos, já é presente em nossas vidas pela Esperança. E, assim como nós fomos reconciliados, recebemos também a responsabilidade de trabalharmos em prol da reconciliação de outros.

E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação

2 Coríntios 5.17,18

Essa NOVA CRIATURA é a realidade que experimentamos agora. O reflexo dessa criatura deve ser percebida hoje. Por isso não devemos viver sustentando a forma corrompida das relações após a Queda. Com a presença do Espírito Santo em nós somos capazes de viver como antes e assim restabelecer a harmonia entre todas as relações. Assim:

  • O homem renascido em Cristo não subjuga a sua mulher;
  • O humano renascido em Cristo não torna a terra maldita;
  • A mulher, por mais que sinta dor ao dar à luz, reconhece que o filho não é motivo de tristeza, mas de alegria;
  • O trabalho, para o humano, não precisa ser sacrificante se as tecnologias o auxiliarem.

Com isso, o humano retorna seu relacionamento com a Criação, pela Esperança, já no tempo presente. Ele volta a ter um bom relacionamento com a terra, não só cultivando-a, mas guardando-a. Nessa nova realidade de existência, os filhos de Deus ganham uma importante missão para com a boa Criação de Deus – libertá-la da maldição!

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós.

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus.

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora.

Romanos 8.18-21

CONCLUSÃO

A Criação de Deus (plantas, animais, etc), que é boa, geme, suporta angústias. Ela sofre! Entretanto ela tem esperança na revelação dos filhos de Deus. Eu e você, como estes filhos(as) regenerados(as) em Deus, somos a Esperança para a Criação. A terra que tornou-se maldita pelos humanos e sua relação com o pecado, deve tornar-se bendita pelos mesmos, através do Espírito do bom Deus Criador que neles habita. Essa é a nossa responsabilidade com a Criação de Deus, ser a Imagem dEle, ser os libertadores. Assim, seremos como este Deus que cria ao invés de destruir, que ama ao invés de odiar, que dá vida ao invés de matar, que liberta ao invés de oprimir.

Cuidem das plantas, cuidem dos animais, cuidem das pessoas, cuidem da vida.

Ir. Erick Monteiro

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