Entre o AUÊ e o The Send: estamos lutando por Cristo ou pelo que colocamos na boca dele?

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Nos últimos dias, a “crentosfera” se viu diante da discussão de pelo menos dois assuntos: AUÊ e The Send. Sobre isto, penso que não caberia mais falar algo sobre A ou B, até porque muitos foram os posicionamentos, comentários e vídeos sobre os temas. No entanto, em meio a essa guerra entre irmãos — que, neste ano, tende a piorar devido às eleições que se aproximam —, lembrei-me de uma fala de Jesus de Nazaré, o Cristo.

Em Mateus 10:34-39, deparamo-nos com uma fala dura do mestre galileu. O capítulo que, segundo Mateus, inicia-se com a chamada dos Doze, evolui com instruções e admoestações ao grupo. Na sequência, Jesus esclarece aos seus discípulos que o discípulo não está acima do seu mestre e que basta a ele ser como o seu mestre (v. 24-25). Diante disso, Jesus declara:

“Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.” (Mateus 10:34-39)

D. A. Carson comenta que, assim como aconteceu na época de Jesus, em que muitos achavam que a vinda do Messias traria paz política, muitos na igreja hoje pensam que a presença de Jesus traz algum tipo de tranquilidade para as suas vidas. Mas “Jesus insistia que sua missão acarretava discórdia e divisão1.

A divisão como herança histórica

A partir disso, reflito sobre o momento em que vivemos mais uma vez no Brasil, onde irmãos se levantam contra irmãos. Realmente, crer no Messias Jesus sugere divisão, ruptura. Pois resulta em assumir que “não sou como eles” ou que “não sigo certa ideologia”. A divisão no cristianismo é algo presente em sua história. Sem regredir muito cronologicamente, tivemos judeus e os que seguiram a “seita do nazareno”. Saltando no tempo, tivemos a cisão entre Oriente e Ocidente. Após, dividimo-nos entre católicos e protestantes. E, entre cada grande evento marcado pela história e até os dias de hoje, continuamos nos dividindo.

No entanto, pelo que lutamos hoje? O que está nos dividindo desta vez? A grande questão é quando o que procuramos zelar não são mais Cristo e seus ensinamentos, mas sim nossas convicções, tradições, ideologias; coisas mais envolvidas com o nosso “eu” do que com o nosso mestre. A isto é dito: “Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á” (v. 39).

Talvez a razão das nossas divisões religiosas seja esta: lutamos não por Cristo, mas sim pelo que queremos colocar na boca de Cristo. Evoluímos nossos estudos teológicos e não soubemos lidar com as novas conclusões. Em vez de assumir possibilidades, elegemos dogmas. Desde o primeiro século, nos esforçamos em escolher quem iríamos chamar de “herege”.

O custo de seguir o mestre

“Vim causar divisão” — realmente, assim tem sido. Embora Jesus não tivesse como propósito dividir por dividir, ao segui-lo, o discípulo precisa deixar algo para trás. O custo do discipulado é o amor maior ao mestre. Ser discípulo é ter a relação com o Cristo acima das outras relações, incluindo a relação com o nosso próprio eu e com os nossos achismos.

Estamos em crise institucional. O evangelicalismo brasileiro sofre diante de cada escândalo, de cada violência. Mesmo assim, quando deveríamos estar buscando ressaltar a verdadeira face de Jesus, discutimos apenas quem tem o direito de falar em Seu nome. Não respeitamos as possibilidades que o outro prefere. Sinceramente, estamos prestes a nos dividir novamente e penso que talvez isso seja necessário. Se não dá para vivermos em comunhão, então que se definam os lados, troquem-se os nomes e, quem sabe em um futuro não distante, possamos trabalhar novamente as ideias de um ecumenismo cristão para que nossas diferenças não sejam as norteadoras das nossas relações.

O que não podemos aceitar hoje é a instrumentalização da discussão para legitimar a ofensa, a violência e a exclusão. Já cometemos esse erro no passado e ainda convivemos com suas consequências. É hora de sacudir o pó dos pés. Que Cristo continue a ressoar a sua voz com autenticidade através de discípulos que não consideram seu próprio ego como o valor supremo. Que a leitura da Bíblia não seja apenas ancorada à expressão “a Bíblia diz”, mas que possamos, com inteligência e coragem, lê-la sem desvirtuá-la para a contemplação dos nossos próprios interesses.

Se avexe não

Diante das discussões e debates, se avexe não. Tenha paciência e nunca utilize a violência. Tiago nos alertou: “Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz” (Tiago 4:11). Não se esforce para se sentar na cadeira do juiz e condenar A ou B, pois não somos dignos de tal posição.

Porém, isso não quer dizer que não podemos nos posicionar, pois Cristo nos ensinou: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis…” (Mateus 7:15-16). Precisamos dar tempo para que a planta cresça, torne-se árvore e então possamos conhecer os seus frutos. Enquanto isso não acontece, não condene, mas se afaste, se considerar necessário. É tempo de divisão — e não falo isso com alegria, mas por percepção. Que haja paz!

  1. CARSON, D.A., O Comentário de Mateus, p. 306 ↩︎

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