Em Aporofobia, a aversão ao pobre: Um desafio para a democracia, escrito por Adela Cortina Orts, uma filósofa espanhola, essa palavra — aporofobia — ganha notoriedade. A partir dessa obra, a autora propõe mostrar que o desprezo e a aversão aos pobres precisam ser nomeados, assim como nomeamos outras fobias. A nomeação é o primeiro passo para a existência.
No primeiro capítulo, na introdução ao tema e à questão, ela comenta:
Em todo caso, quem despreza assume uma atitude de superioridade em relação ao outro, considera que sua etnia, raça, tendência sexual ou crença — seja religiosa ou ateia — é superior e que, portanto, a rejeição ao outro está legitimada. Este é um ponto central no mundo das fobias grupais: a convicção de que existe uma relação de assimetria, de que a raça, a etnia, a orientação sexual, a crença religiosa ou ateia de quem despreza sejam superiores às de quem é o objeto da rejeição. Por isso, o indivíduo se considera legitimado para atacar as atitudes e as palavras, as quais, no fim das contas, também são uma maneira de agir. (p. 23)
Do mesmo jeito que raça, etnia, orientação sexual, crença religiosa ou ateia tornam-se objeto de fobias em nossa contemporaneidade, o ser pobre também tem sido alvo das nossas fobias. O que Adela também analisa é como o fato de ser pobre torna-se um agravante em relação à fobia. Se uma mulher ocupa um lugar de poder, alguns podem desdenhá-la apenas por ser mulher. Mas, se essa mulher pertence a uma classe social elevada, se ela é rica, é possível que tenhamos menos resistência em relação a ela. Porém, se essa mulher também é pobre, então sobre ela colocamos nosso desprezo, nossa aversão. Parece que ser pobre, em um mundo consumista, contratualista, capitalista, é o pior dos pecados.
Felizmente, os que creem em Jesus de Nazaré podem perceber, no seu mestre, o contrário da aporofobia. Pois lá estava Jesus, entre os pobres, abençoando-os. Certa vez, conforme relata o evangelho de Marcos (12:41–44), Jesus chama os seus discípulos e declara que uma viúva pobre havia dado a melhor oferta. Em outro momento, conforme Marcos 10:46–52, quando chegava à cidade de Jericó, Jesus ouve, mesmo em meio aos ruídos da multidão, a voz de um cego pedinte chamado Bartimeu. Então, além de ouvi-lo, dedica seu tempo a conversar com ele e perguntar: “O que queres que eu te faça?” Ou seja: pobre, desprezado, agora eu estou aqui para te ouvir e te servir — o que você deseja? O desfecho deste texto é a realização de um milagre. Aquele que antes não podia ver encontrou em Jesus, o Cristo, a luz necessária para que os seus olhos fossem abertos e contemplassem o Filho de Davi.
Ninguém deve ser simplesmente desprezado e classificado como um estranho e indigno. Todos merecem dignidade, voz, vida e luz. Olhar para os pobres e vê-los como pessoas dignas de vida é um ministério a ser realizado, tendo em vista as ações de Jesus de Nazaré. Precisamos refletir, como Cortina destaca, sobre a aversão que muitas vezes, enquanto sociedade, sustentamos contra aqueles que aparentemente não têm nada a nos oferecer — e, por isso, devem ser jogados à margem. A luta deve ser o contrário: lutarmos dia após dia para que aqueles que hoje estão pelas ruas possam encontrar um lar e um novo fôlego de vida. O que deve ser eliminado não é o pobre, mas sim a condição da pobreza. Este é o desafio.
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