A Linha do Desespero: Schaeffer e a Mudança do Pensamento Moderno

SCHAEFFER, F.A. O Deus que intervém. Tradução: Gabrielle Greggersen. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2016. 256 p. ISBN 978-85-7622-600-0.


O Deus que Intervém, lançado em 1968 sob o título original The God Who Is There, é amplamente reconhecido como o primeiro volume da trilogia clássica do autor norte-americano Francis August Schaeffer (1912-1984). Nesse livro, Schaeffer estabelece as bases de seu pensamento, oferecendo uma análise profunda e provocativa sobre os desafios da modernidade à fé cristã. Os outros dois volumes da trilogia são A Morte da Razão e O Deus que se Revela, que complementam sua reflexão teológica e filosófica. No prefácio à trilogia, é descrito que este primeiro livro:

“mostra como foi que o pensamento moderno abandonou a ideia de verdade, com trágicas consequências para todas as áreas da cultura – desde a filosofia, até a arte, música, teologia e na sociedade como um todo. A única esperança, argumenta Schaeffer, está em confrontar a nossa cultura com a verdade histórica do Cristianismo – apresentada com paixão e sem concessões, e vivida de maneira completa, em todas as áreas da vida individual e comunitária” (p.8-9).

Aqui está um dos pontos mais interessantes de se ter contato com este autor, pois ele consegue, através das suas obras, argumentar sobre diferentes áreas da vida. Na crítica presente neste livro ele aborda o impacto da mudança do pensamento moderno não apenas em relação à filosofia e teologia, mas também no que se refere à arte e música, dando exemplos claros sobre isto a partir da análise de obras reais.

No capítulo primeiro – A linha divisória é fixada, Schaeffer apresenta sua tese sobre a mudança da base de pensamento do humano ocidental, tendo como datas de corte 1800 para a Europa e 1935 para EUA (p.21). Ele diz que após essas datas é possível desenhar uma linha chamada de “Linha do Desespero”. E diz que: “Acima desta linha, encontramos seres humanos convivendo com seus absolutos românticos (ainda que sem base lógica suficiente). Do lado de cá, tudo mudou. O homem passou a pensar de modo diferente a respeito da verdade” (p.22). Esse modo diferente, que ele fala, é em relação a “pressuposição da antítese” (p.21), ou seja, a estrutura de pensamento de sim-não ou certo-errado. De modo que, antes da linha do desespero, se uma pessoa propusesse uma verdade e o outro, em contrapartida, quisesse refutá-la, ele proporia uma ideia contrária ou antítese. Essa é a base de pensamento do homem ocidental até essas datas referências, segundo Schaeffer.

No capítulo dois – O primeiro degrau na linha do desespero: a filosofia, Schaeffer aponta Hegel1 como o responsável por “abrir as portas para a Linha do desespero” (p.27). Ele comenta que Hegel mudou a forma de pensar predominante, baseada no sentido de antítese, que relacionava-se com a ideia de causa e efeito em uma cadeia contínua e em linha horizontal. Então, Schaeffer diz que:

“De agora em diante […] em vez de pensarmos em termos de causa e efeito, o que temos, na realidade, é uma tese e, opondo-se a ela, uma antítese, sendo que a resposta ao relacionamento das duas não é um movimento horizontal de causa e efeito, mas uma síntese. […] Hegel removeu a linha reta do pensamento anterior, substituindo-a por um triângulo. Em vez da antítese, na forma de abordagem do homem moderno à verdade, temos uma síntese” (p.28).

Após, o autor apresenta Kierkegaard2 como o segundo nome responsável pela mudança no pensamento, desenvolvendo o princípio do existencialismo e apresentando a ideia de que “ninguém pode chegar à síntese pela razão. Em vez disso, conseguimos tudo de real importância por uma espécie de salto de fé” (p.29). Assim, ele continua nos capítulos seguintes explorando o impacto que essa mudança na estrutura do pensamento tem para a arte, a música, a cultura geral e a teologia. Este último é onde ele gastará mais tempo, ao abordar a relação dessa nova teologia com o clima intelectual e depois distinguindo essa nova teologia do cristianismo histórico, além de dar conselhos para a sobrevivência do cristianismo tradicional em um mundo transformado pelo relativismo.

O Deus que intervém não é um livro simples, mas ter contato com essa obra, além de nos aproximar dos argumentos de Schaeffer a fim de conhecê-los, também nos ajuda a perceber alternativas diante de uma sociedade que ainda se parece com aquela que ele viveu. Os últimos capítulos e os apêndices são cheios de explicações e palavras que nos encorajam a permanecer na fé tradicional e também a procurar promover debates relevantes em meio à modernidade.

  1. Georg Wilhelm Friedrich Hegel, importante filósofo germânico e participante do chamado idealismo alemão – (1770-1831) ↩︎
  2. Søren Aabye Kierkegaard foi um filósofo e teólogo dinamarquês, amplamente considerado o primeiro filósofo existencialista. (1813-1855) ↩︎

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