O DEUS QUE DÁ: uma reflexão a partir de Gênesis 22 e o quase sacrifício de Isaque

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Em Gênesis 22:1-19, temos a narrativa de Abraão e seu filho Isaque rumo ao que seria o fim do jovem filho da promessa. Segundo o texto, no verso 2, Deus diz a Abraão:

“Tome seu filho, seu único filho, Isaque, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei”.

Ao continuar a narrativa, o texto nos apresenta um desfecho mais agradável, onde no verso 12 o anjo do Senhor aparece a Abraão e lhe impede de sacrificar seu filho, dizendo:

“Não toque no rapaz. Não lhe faça nada. Agora sei que você teme a Deus, porque não me negou seu filho, o seu único filho”. Em seguida, Abraão encontra um carneiro preso pelos chifres em um arbusto e o sacrifica em lugar de seu filho. Ele então nomeia aquele lugar de ‘O Senhor proverá’.

No entanto, ao considerar essa história no contexto religioso da época, podemos pensar em uma interpretação adicional, levando em conta as possíveis práticas de sacrifícios humanos realizadas por povos adjacentes.

Segundo Jônatas de Mattos Leal, em sua dissertação de mestrado pela PUC-Pernambuco, com o título “RELIGIÃO, SACRIFÍCIOS HUMANOS E HERMENÊUTICA: Um estudo a partir da história da interpretação do sacrifício da filha de Jefté em Jz 11,29-40”, sobre essa abominável prática, esclarece:

“O testemunho mais evidente ‘vem do meio fenício e concerne aos sacrifícios de crianças’ (VAUX, 2004, p. 479). No caso fenício, não se tem dúvida que, de alguma maneira, o sacrifício humano era praticado nesta cultura”.

Embora não se tenha conhecimento do contato direto de Abraão com os fenícios, é bem possível que, indiretamente, a cultura e a religião fenícia fossem conhecidas por Abraão e demais moradores de Canaã.

Em seguida, Leal destaca a reprovação do Deus de Israel, segundo o texto veterotestamentário, em relação a tal sacrifício:

“A evidência textual que apóia o posicionamento contrário do javismo com respeito aos sacrifícios humanos é esmagadora. Principalmente quando se tem em vista que ela é oriunda de diferentes tradições no Antigo Testamento. De fato, o Antigo Testamento expressamente abomina e proíbe o sacrifício humano (Lv 18,21; 20,2-5; Dt 12,31-32; 18,10; 1Re 16,30-34). Em particular, o sacrifício de crianças é visto como uma atrocidade e ofensa contra os mandamentos de Deus (Jr 7,31; Ez 16,20-21; 20,31) (BROMILEY, 2003, p. 259)”.

Observando especificamente o texto citado de Levítico 18.21, vemos uma advertência do Deus hebreu contra a prática dos sacrifícios de crianças a um chamado deus Moloque:

“Não entregue nenhum dos seus filhos para ser sacrificado a Moloque, pois você não deve profanar o nome do seu Deus. Eu sou o Senhor”.

Dessa forma, considerando as exposições referentes à prática do sacrifício humano em povos contemporâneos a Abraão, constitui-se uma possibilidade de reflexão sobre a ordem dada por Deus ao pai da fé. Em um primeiro momento, o Deus de Abraão assemelha-se a outros deuses antigos, ou mais precisamente a Moloque, quando diz em relação ao seu filho Isaque: “sacrifique-o ali, como holocausto”. Um pedido horrível, abominável e violento, porém, não inusitado. Até aqui, o que há é uma relação de servo com o seu divino na tentativa de obter aproximação, favor e relação.

Contudo, como já foi exposto no início deste texto, a história tem uma reviravolta, e o mesmo Deus que “ordenou o sacrifício” agora é quem “ordena a salvação”. Sendo assim, o que é possível perceber é que esse Deus de Israel estava, ao revelar-se ao seu fiel servo Abraão, se identificando e se definindo. É como se ele dissesse ao fim dessa história, logo após o impedimento em relação ao sacrifício de Isaque: “Abraão, eu não sou Moloque, eu não sou como outros deuses que você conheceu. Eu sou aquele que salva, eu sou aquele que provê. Se antes você conheceu deuses que exigiam algo de você, agora quero lhe dizer que você me conhece: o Deus que dá”.

Pensando assim, conclui-se que ali Abraão não estava apenas sendo testado, mas sim obtendo uma revelação. O texto, diante dessa perspectiva, não se trata apenas de Abraão e sua fé, mas sim de Deus e sua incrível graça que se preocupa em prover ao invés de privar. O Deus de Abraão é um Deus abençoador e promotor da vida. Este é o Deus que enviou o seu Filho unigênito para que os que nele cressem fossem salvos (João 3:16). Essa é a sua identidade: salvação e vida abundante.


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