Ser “um”, não no sentido numérico, mas na expressão de uma unidade, referente à qualidade do que é coeso, é um ideal expresso pelo próprio Jesus, o Cristo, quando realizou sua conhecida “oração sacerdotal”, em João 17. No verso 21, especificamente, ele diz:
a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós.
Mas o que Jesus pensou ou como é essa realidade que ele anunciou? Hoje iremos imaginar essa realidade e discutir conceitos correlatos, a partir da série Pluribus e da sua interessante premissa.
A série de TV americana, estreada na Apple TV+ em novembro de 2025, protagonizada por Rhea Seehorn, no papel de Carol Sturka, dirigida por Vince Gilligan, aborda a vida de uma autora bem-sucedida de livros ficcionais que se vê em uma situação desesperadora ao presenciar todas as pessoas ao seu redor entrando em transe. No desenvolver da história, ela descobre que um vírus extraterrestre transformou todos os humanos em uma mente coletiva pacífica e satisfeita, com exceção dela e de outras 12 pessoas que foram imunes aos efeitos da “União”.1 Assim, Carol Sturka passa a viver sob essa condição, tendo que lidar com um luto e com essa nova personalidade coletiva que se apresenta nas pessoas a sua volta.
Além do enredo interessante, Pluribus nos apresenta uma ideia de como seriam as pessoas se vivessem a partir de uma mente coletiva, desfrutando das mesmas sensações, conhecimento, experiências, sem uma individualidade. Assim, enquanto assistia aos episódios, inevitavelmente me lembrei de João 17. Não com a inocência de querer dizer que assim é a realidade apresentada por Jesus, até porque creio que isto deva permanecer no mistério, até que se revele totalmente. Entretanto, me deparei com um exercício imaginativo interessante, o qual ainda não havia pensado. Ser um, ou seja, estar ligado a uma mesma mente, alma, espírito, capaz de desfrutar de uma vida totalmente compartilhada onde não existe mais um “eu”, apenas o “nós”.
Dessa forma, pensar na vida a partir dessa experiência de mente coletiva apresentada pela série, nos leva a refletir também sobre o individualismo e seus impactos no cotidiano. Através das falas da personagem Zosia, interpretada por Karolina Wydra, Carol descobre, sempre com desconfiança, como é essa vida coletiva. Em suas explicações, Zosia comenta, parafraseando, que não existe mais conflito, brigas, desentendimentos, confronto, invejas, maldade, pois se todos são um, não há a possibilidade de acontecer tais infelicidades. Isto me levou a pensar em como a própria noção de indivíduo nos empurra para um lugar onde se torna quase impossível a verdadeira paz. Olhar para si e se perceber diferente de outro é uma realidade suscetível ao confronto. A paz só decorre da unidade, da coesão.
Embora, como já dito até aqui, a ideia contida na fala de Jesus seja ainda um mistério, passível apenas de teorizações por nossa parte, assistir a essa série me levou a perceber como a sustentação de pensamentos e ideologias que nos fragmentam, que nos hiper-individualizam, nos colocam mais distantes da prática do amor e da constituição da verdadeira paz. O que temos em nosso mundo consumista é o apelo intenso para o individualismo, pois com isso se estimula o consumo, também individual, que mantém a vida desse sistema.2
Por fim, enquanto não nos é revelada a totalidade dessa co-existência trinitária, o imperativo é que esforcemo-nos para antecipá-la, já com o que nos é tangível, como destaca Francis Chan:
De algum modo real, estou em Jesus, o Espírito está em mim, e o Pai e o Filho habitam em mim”.3
Isto, com uma finalidade evidente, expressa pelo próprio Jesus: “para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Saber exatamente do que se trata “ser um” permanece além da nossa compreensão plena, mas o ideal já foi estabelecido. Cabe aos que nele creem buscar, dentro do possível, concretizar essa realidade, pois certamente nesse caminho está a construção da paz e do amor mútuo, de um mundo perfeito e almejado por aqueles e aquelas que amam o bem.
- Pluribus – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org) ↩︎
- Para saber mais sobre essa relação entre consumismo e hiperindividualização, leia LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. ↩︎
- CHAN, Francis. Até que sejamos um: um clamor pela unidade no corpo de Cristo. Tradução de Claudia Santana Martins. São Paulo: Mundo Cristão, 2021. ↩︎
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